Ela escreveu um texto poderoso para explicar por que ‘amamentar não é um ato de amor’

Nos últimos dias, um texto sobre a amamentação viralizou na internet. Nele, a blogueira Tais Vinha compartilha uma conversa que teve com sua mãe Verareconhecida nacionalmente pela luta a favor do aleitamento materno, em 2009.

“A primeira vez que ouvi minha mãe pronunciar tal frase, estranhei. Eu havia ido buscá-la após uma entrevista (…) e notei que ela estava aborrecida (…). Ela disse: Eles fizeram de tudo para que eu afirmasse que amamentar é um ato de amor. Mas eu nunca direi isso. Amamentar não é um ato de amor”, diz o início do texto.

Tais conta ainda que se sentiu confusa, já que cresceu em meio a mulheres que procuravam sua mãe para ajudá-las a dar de mamar, desempedrar o leite, entre outras coisas. Questionou então Vera, que disse que ‘amamentar é optar por dar o melhor alimento ao bebê, não tem nada a ver com amar’, e argumentou na sequência, dizendo que os pais, por exemplo, não amam menos seus filhos, e eles não amamentam. As mães adotivas também. E as mães que precisaram desmamar para amamentar, então?

A professora ainda disse que amamentar é apenas o ato de alimentar o filho da melhor maneira possível. “Já amar é outra coisa. As pessoas que confundem as duas coisas, sem querer, estão fazendo um desserviço ao aleitamento, pois as mães ficam mais ansiosas, culpadas e cheias de temores”, explica.

Confira o texto na íntegra:

A primeira vez que ouvi minha mãe pronunciar tal frase, estranhei.

Eu havia ido buscá-la após uma entrevista para um programa da Rede Mulher e notei que ela estava aborrecida. Perguntei o que havia acontecido e ela disse:

Eles fizeram de tudo para que eu afirmasse que amamentar é um ato de amor. Mas eu nunca direi isso. Amamentar não é um ato de amor‘.

‘Mãe, como assim?’ Por um instante, achei que minha mãe estava virando casaca e negando o trabalho de toda uma vida.

Minha mãe foi uma das grandes batalhadoras do aleitamento materno no Brasil e no mundo. Docente da Faculdade de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto, ela ajudou a formar núcleos de aleitamento por todo o país, colocou o assunto na pauta da formação de profissionais, escreveu livros, cartilhas e foi conselheira da OMS sobre o tema, para os países de língua latina.

Eu cresci com mulheres batendo à nossa porta para “desempedrar” as mamas e aprender a dar de mamar. Com alunas que a procuravam para orientar teses de mestrado. Era peito e recém-nascido para todo lado. Aquela frase, dita assim de repente, me pegou totalmente de surpresa.

Amamentar é optar por dar o melhor alimento ao bebê. Não tem nada a ver com amar. Se fosse assim, poderíamos dizer que os pais amam menos seus filhos? Eles não amamentam. As mães adotivas também não. Ou as mulheres que fizeram plástica. Ou as mães que precisaram desmamar seus bebês para trabalhar…será que todos eles amam menos seus filhos porque não amamentam?’

‘Mas é o que a gente sempre escuta…que amamentar é dar amor’, argumentei.

‘Pois é…mas amamentar é dar alimento. O melhor alimento. O mais completo e o que melhor nutre o bebê. Já amar é outra coisa. As pessoas que confundem as duas coisas, sem querer, estão fazendo um desserviço ao aleitamento, pois as mães ficam mais ansiosas, culpadas e cheias de temores. Todos sabem que uma mãe tranquila amamenta melhor. E como uma mãe pode amamentar tranqüila se ela acha que estará dando menos amor para seu bebê se fracassar? Olha o peso deste sentimento!

Quanto mais desmistificarmos o aleitamento, melhor. As sociedades que amamentam melhor, são aquelas que o fazem naturalmente, como parte de uma rotina. O bebê está com fome, a mãe dá o peito. Simples assim. Quase mecânico. Ninguém pensa muito nisso.

E as mulheres que por algum motivo não conseguem amamentar, precisam parar de sofrer. De sentir culpa. Existem muitas outras formas delas darem o suporte psicológico que o bebê precisa. É óbvio que o aleitamento é a melhor escolha, mas a partir do momento que esta escolha não pode ser feita, a mãe deve parar de sofrer’.

Essa era a minha mãe. Cheia de ideias próprias. Cheia de amor. Uma batalhadora da maternidade sem culpa“.

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