A história de quem passou 26 anos na estrada

O Dia do Motorista é comemorado anualmente em 25 de julho. Esta data é uma homenagem aos profissionais que trabalham com o “pé na estrada”, seja transportando mercadorias ou pessoas por diversos lugares do país.

O Dia do Motorista é comemorado no Dia de São Cristóvão, santo católico considerado o padroeiro dos motoristas no Brasil.

O Decreto nº 63.461, de 21 de outubro de 1968, oficializa o dia 25 de julho como o “Dia do Motorista” no Brasil.

De Videira para o Brasil

Nossa equipe de reportagem conversou com Wilson Silva do Amaral, presidente do Sindicato dos Condutores de Veículos e Trabalhadores em Transportes Rodoviário de Cargas e Passageiros de Videira e Região (SINTRAVIDE). Amaral trabalhou por muitos anos como motorista e agora representa a categoria através do sindicato.

Confira a entrevista:

Jornal Folha: Por quantos anos você trabalhou como motorista?

Amaral: Trabalhei por 26 anos de motorista, e atualmente a 9 anos de Diretor Sindicalista.

Jornal Folha: Você trabalhava como autônomo ou  para alguma empresa?

Amaral: Atuei nos dois segmentos, tive quatro anos de autônomo, e posteriormente fui funcionário de transportadoras, sendo que o último registro, ainda sou funcionário de uma empresa de transporte,liberado para atuar no sindicalismo, sendo custeado o meu salário pela entidade, mas continuo funcionário de uma transportadora.

Jornal Folha: Por quais estados você viajou?

Amaral: Viajei por todos os estados Brasileiros, durante estes vinte e seis anos de trabalho como motorista.

Jornal Folha: Qual a viagem mais marcante da sua carreira?

Amaral: Uma das viagens que mais ficou marcada, de forma diferenciada, foi quando carreguei para Manaus. Nesta viajem tive que ficar com a carreta na maior parte do tempo de viagem em cima de uma balsa. Foram em torno de dez dias embarcado em cima da balsa, e com poucas condições de saúde, saneamento básico, alimentação limitada, e segurança. Foram 950 quilômetros de água. Se fosse fazer o trajeto nas rodovias seriam 2.500 quilômetros, por isso a escolha de ir pelo caminho com a balsa. Sendo assim você fica a mercê de outros , como o comandante da balsa, e dos maniqueiros, e assim conhecendo um Brasil diferente , que só conhece esta realidade , quem se aventurar por uma viagem desta.

Jornal Folha: Qual era a maior dificuldade enfrentada na estrada?

Amaral: No inicio de minha vida como motorista, a maior dificuldade, era se comunicar com a família, e em caso de uma dificuldade nas estradas, como manutenção, problema nas fiscalizações entre os postos fiscais dos estados, com os clientes, com alguma divergência, entre o pedido efetuado, e o produto e valores , na hora da entrega dos mesmos. Os telefones da época eram poucos, e os poucos que existiam, os chamados orelhões, tínhamos que aguardar em filas para efetuar ligações, isto gerava muita angustia nas viagens longas e demoradas. Muitas vezes ficávamos trinta dias até retornar para nossas residências e familiares.

Jornal Folha: Como fica a família de quem trabalha como motorista?

Amaral: A família, acredito que no passado e hoje, sempre fica apreensiva, devido as dificuldades e inseguranças da profissão, tais como assaltos, acidentes, e a saudade de seus entes queridos.

Jornal Folha: Qual foi a maior lição que você aprendeu na estrada?

Amaral: Se aprende muito nas estradas, como parceria com pessoas desconhecidas, o valor humano, o valor de seus familiares. Devido as várias situações e dificuldades que passamos e presenciamos e neste momento que a saudade e o afeto familiar bate com muita força. Aprendemos muito com a diversidade de raças e povos brasileiros e seus costumes, temos na escola da vida, uma oportunidade, que só os profissionais da estrada tem. Conhecemos a realidade de muitos estados, que quem vive só em nossa cidade nem imagina, e que as vezes ouve uma reportagem em jornais,TV etc… e não acredita, por nunca ter presenciado e por não ter conhecimento da realidade deste país, com dimensões territorial imensa.

Jornal Folha: Hoje fora da estrada você percebe que as dificuldades aumentaram ou diminuíram para o profissional?

Amaral: As dificuldades atuais são gritantes, a principal hoje é a falta de segurança nas rodovias. Os investimentos por parte do poder público vem ano a ano diminuindo, sendo que os índices da criminalidade, assalto  de quadrilhas especializadas em cargas e roubo de veículos,  cresce a olhos vistos e se comprovam com os estudos efetuados nesta área. Os Investimento em infra estrutura nas rodovias e segmentos na área dos transportes são inferiores em comparação ao custo dos pedágios, por exemplo. Tivemos avanços nas comunicações, com o celular, radio amador, rastreamentos via satélite, e nos veículos do transporte, como cavalos mecânicos, carretas e outros segmentos, geraram um conforto, e segurança no dia  a dia de trabalho, que gerou melhor qualidade ao trabalhador . Mas hoje os profissionais sofrem uma pressão psicológica dos embarcadores, criando regras e normais, as quais não respeitam as leis trabalhistas (CLT), e constituição brasileira, e quem não se adequar, ou não aceitar as normas criadas por embarcadores e transportadores, é excluído do setor.

Jornal Folha: Você acha que o profissional é reconhecido pela população, governantes e empregadores?

Amaral: O reconhecimento da sociedade brasileira passou a ser outro depois da greve do mês de maio de 2018. A sociedade olhava aos profissionais da estrada como pessoas sem escolaridade, e que os quais, sobrevivem como caminhoneiros , sem qualificação, educação. Depois da greve a sociedade descobriu que o Brasil, sem o transporte terrestre e em especial, para. E se parar, todos sofrerão graves dificuldades até chegar a um caos. As pessoas devem perceber que estes profissionais são pais de família, seres humanos iguais aos demais, e que estão se sacrificando, dia após dia, sem valorização profissional, pessoal, mas que seguem por vários motivos, uns por que amam o que fazem, outros por ser um meio de sobreviver, mas de modo geral, não existe reconhecimento a estes profissionais. As empresa de transportes, de um modo geral, exploram o trabalhador, de maneira financeira e pessoal e não reconhecem o seu grande valor. Peço que Deus nos ajude, no dia a dia, pois o poder publico, a sociedade, as empresas, pouco valor e reconhecimento tem para com estes profissionais.

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