Setor de tecnologia representa 5,6% da economia de SC, com movimento de R$ 15,5 bilhões ao ano

O que falta para o setor que emprega 47 mil pessoas se tornar a nova matriz econômica do Estado na opinião de entidades e especialistas

O setor de tecnologia, que cresceu mais de 10.000% nas últimas três décadas (Foto: Salmo Duarte)

Uma janela se abre para o futuro de Santa Catarina. O setor de tecnologia, que cresceu mais de 10.000% nas últimas três décadas e já representa 5,6% da economia catarinense (movimentando R$ 15,5 bilhões em faturamento e empregando 47 mil pessoas), traça uma trajetória progressiva que visa transformar a matriz econômica estadual. O plano é fortalecer o ecossistema de inovação existente no Estado e alçar as empresas de tecnologia ao pelotão de frente da sexta maior economia do País a médio e longo prazo.

Mais que uma reinvenção necessária diante das mudanças intangíveis da chamada “quarta revolução industrial” – que conecta tecnologias digitais, físicas e biológicas -, a intenção do setor está em ampliar o reconhecimento do Estado como um ser inovador. A ideia é valer-se da cooperação e unir os diversos pólos catarinenses para que Santa Catarina se torne para o Brasil uma inspiração como o Vale do Silício é para o mundo.

A pretensão não está em copiar o modelo da “meca da inovação” mundial, que reúne na Califórnia, nos Estados Unidos, gigantes tecnológicos como Uber, Facebook, Google e Apple, mas trocar experiências. Ideias que conduzam a economia estadual para o mesmo referencial que fez despontar os exemplos americano e de Israel, outra referência global. Em linhas gerais, formar o “Nosso Vale do Silício”.

Essa avaliação é partilhada pelos expoentes em tecnologia no Estado, entre eles, Daniel Leipnitz, presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), que representa a maior fatia do setor “tech” em Santa Catarina. A entidade é uma das principais defensoras e articuladoras da convergência dos projetos espalhados no Estado. O objetivo é formar um ciclo virtuoso em torno da inovação.

— Temos conhecido diversos ecossistemas mundo afora e devemos continuar a buscá-los e absorver de cada um o que eles têm de bom para montar um modelo próprio e promissor para Santa Catarina. Possuímos uma força associativista única e estamos trabalhando nessa união de competências por entender que vamos ter marca e respaldo muito maiores perante outros estados e países — justifica ele.

A ambição da associação é que esse mesmo propósito aproxime a hélice tríplice da inovação, formada por governos, empresas e universidades, bem como fortalecer uma quarta espiral, as pessoas. Além disso, o apoio de instituições como a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Fundação Certi – Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras, Endeavor e Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) – é considerado essencial para imprimir uma economia liderada pela tecnologia e a inovação em Santa Catarina.

— Visamos ser a maior economia catarinense e acreditamos que isso será possível num futuro próximo. Por dois motivos: primeiro o crescimento orgânico de novas empresas dentro do próprio setor; segundo, pela transformação de indústrias tradicionais em indústrias de tecnologia — analisa Daniel.

O setor de tecnologia, que cresceu mais de 10.000% nas últimas três décadas
O setor de tecnologia, que cresceu mais de 10.000% nas últimas três décadas

(Foto: Cristiano Estrela)

Projeção nacional com as staurtps

Esse crescimento vem impulsionado principalmente pelo boom das startups, criação de incentivos como o Sinapse da Inovação e o desenvolvimento de iniciativas voltadas à novas tecnologias nas seis mesorregiões catarinenses: Grande Florianópolis; Vale do Itajaí; Norte; Sul; Serra e Oeste. Calcula-se que atualmente mais de R$ 280 milhões em fundos de investimento transitem no Estado e a meta da própria Acate é que o fomento chegue a R$ 1 bilhão em até cinco anos para o desenvolvimento desses setores.

Somado a isso, apesar de ritmo ainda inicial no comparativo com outros lugares no mundo, a nível Brasil, Santa Catarina marca território entre os principais polos brasileiros de tecnologia.

Possui a terceira maior densidade nacional de trabalhadores do segmento, de 659,7 colaboradores em cada grupo de 100 mil/hab, atrás apenas de Amazonas (1.001,72) e Distrito Federal (975,51). Em outro indicador ocupa a quarta colocação na média ponderada de empreendedores, de 236,09 pessoas para cada 100 mil moradores – acima da média nacional de 204,49 por 100 mil/hab. Quanto a densidade de empresas a liderança é de São Paulo (334,45 em cada 100 mil/hab) e Santa Catarina vem no sexto lugar (176,61 a cada 100 mil/hab).

É preciso inovar e vencer desafios para continuar prosperando

Afinal, o que falta para termos o “Nosso Vale”? A aposta das lideranças locais está em manter a evolução constante no setor mirando a vocação empreendedora dos catarinenses para a “disrupção”, ou seja, desafiando o ‘status quo’ atual. Essas são exigências naturais frente aos velhos modelos de negócios e diante das novas tecnologias advindas da internet, que envolve conceitos até então desconhecidos como Nuvem, Big Data, Indústria 4.0, Comunicação Cognitiva e Internet das Coisas.

Outro desafio é capacitar e formar novos talentos e reciclar os profissionais que já estão mercado em conformidade com a reformulação exigida na indústria, nos serviços e demais setores econômicos – que hoje enfrentam escassez de talentos principalmente em funções antes inexistentes. Especialistas destacam ainda que faz-se necessário aumentar os investimentos aplicados à tecnologia, intensificar as parcerias público-privadas e aumentar o elo com as unidades de ensino.

Também é visto como fundamental ter ambiente de estímulo constante ao surgimento de ideias empreendedoras e novos negócios, além do envolvimento efetivo de cada uma das “hélices da inovação” (poder público, iniciativa privada, academia e sociedade) para que haja êxito ao que se espera alcançar nas próximas décadas.

— A inovação é um dos pilares do nosso planejamento estratégico e eu só vejo inovação quando se faz a união dessas quatro forças. Estamos no caminho do equilíbrio e vai ser este o nosso diferencial. Sempre fomos um Estado protagonista e temos indústrias de base tecnológica se desenvolvendo e em ascensão significativa, então novamente Santa Catarina vai ser um exemplo para o Brasil — observa Mario Cezar de Aguiar, presidente da Fiesc.

Daniel Leipnitz, presidente da Acate
Daniel Leipnitz, presidente da Acate

(Foto: Cristiano Estrela)

Nosso trabalho nos últimos anos tem sido no intuito de trabalhar a mentalidade das pessoas para a inovação e no convencimento de deixar os localismos de lado e construir uma proposta juntos em torno do ecossistema tecnológico. Acreditamos que com isso nós vamos ser mais fortes, porque uma coisa é chegar alguém e falar “eu sou do Estado de Santa Catarina”. O nosso concorrente não está em outra cidade, nosso concorrente é global, então essa união faz toda a diferença.

Daniel Leipnitz, presidente da Acate

José Rizzo Hahn Filho, presidente da Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII)
José Rizzo Hahn Filho, presidente da Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII)

(Foto: Salmo Duarte)

Santa Catarina no contexto de Brasil, está bem, acho que por ter uma força de trabalho competente, educada, uma indústria forte, ela percebeu a importância de se engajar nesse movimento e a gente tem hoje vários exemplos claros de que isso está acontecendo de forma acelerada aqui no nosso estado. Mas quando se fala em Vale do Silício, falta bastante, porque estamos conseguindo endereçar de forma correta as necessidades de capacitação de pessoas, mas para acelerar os negócios é preciso vencer duas grandes travas que temos no Brasil: acesso a capital e menos burocracia para criar e até para fechar uma empresa que não tenha dado certo.

José Rizzo Hahn Filho, presidente da Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII)

Danilo Conti, Secretário de Planejamento Urbano de Joinville
Danilo Conti, Secretário de Planejamento Urbano de Joinville

(Foto: Salmo Duarte)

No Brasil, o Estado que mais se aproxima do Vale do Silício talvez seja Santa Catarina, por ser aquele que pensa mais o todo. Existem centros de inovação atuantes ou sendo criados em todas as regiões catarinenses. O que está acontecendo agora é um movimento muito forte dessas iniciativas de dialogarem para que se tenha um ecossistema único e equilibrado. A ideia faz muito sentido porque não adianta criar ilhas de excelência enquanto o Estado fica carente em outras pontas. Isso não é algo que se vê em outras Regiões do País, então Santa Catarina está muito à frente dos outros estados quando se trata de inovação.

Danilo Conti, Secretário de Planejamento Urbano de Joinville.

Miguel Abuhab, fundador da Datasul e da Neogrid
Miguel Abuhab, fundador da Datasul e da Neogrid

(Foto: Salmo Duate)

Hoje a nível Brasil certamente nós estamos muito evoluídos em termos de educação e de tecnologia. Penso que Santa Catarina é de destaque no Brasil e é curioso que em uma viagem que fiz recente a São Paulo, eu estava em um táxi e falei que sou de Santa Catarina e o taxista falou “ah, você é do Estado da tecnologia”. Então às vezes com uma pessoa humilde, que não é do nosso ramo, mas ele mesmo identificou que Santa Catarina é o estado da tecnologia.

Miguel Abuhab, fundador da Datasul e da Neogrid

Mario Cezar de Aguiar, presidente da Fiesc
Mario Cezar de Aguiar, presidente da Fiesc

(Foto: Marcos Campos, divulgação)

Santa Catarina sempre foi um Estado protagonista e isso vem do próprio espírito catarinense de ser empreendedor, e com essa quarta revolução industrial nós também estamos despontando pela quantidade de empresas e pelo que elas já representam do PIB. Temos indústrias de base tecnológica se desenvolvendo no Estado e novamente Santa Catarina vai ser um exemplo para o Brasil. Acho que se não somos já o mais avançado estamos seguindo para ser o estado mais preparado para que nós tenhamos aqui o nosso Vale do Silício.

Mario Cezar de Aguiar, presidente da Fiesc.

Marcelo Hack, presidente do Perini Business Park
Marcelo Hack, presidente do Perini Business Park

(Foto: Salmo Duarte)

Santa Catarina tem uma cultura empreendedora fantástica, somos o segundo estado brasileiro em número absoluto de startups. E no final do dia a inovação vem das pessoas, então se elas têm essa cultura e querem inovar, a inovação acontecerá. Acredito que se nós tivermos boas políticas públicas, a universidade com qualidade e a iniciativa privada entendendo que inovar é fundamental para sua existência, vamos conseguir atrair empresas de todo o mundo para que invistam no Estado e desenvolvam novas tecnologias. Então, Santa Catarina tem hoje, na minha opinião, as melhores condições para se tornar o Vale do Silício Brasileiro, e vai ser, pode ter certeza.

Marcelo Hack, presidente do Perini Business Park

Fonte: Diário Catarinense

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