Com cirurgia de Bolsonaro em janeiro, Mourão será o primeiro general a governar o Brasil desde a ditadura

Trinta e quatro anos depois do general João Baptista de Oliveira Figueiredo deixar o Palácio do Planalto, um representante das mais altas patentes do Exército voltará a ocupar a presidência do Brasil em janeiro de 2019 — embora por poucos dias e com diferenças fundamentais. Vice-presidente eleito pelo voto popular, ao contrário do último governante da ditadura militar, o general da reserva Antônio Hamilton Martins Mourão (PRTB) assumirá o comando do país por cerca de duas semanas. Esse é o período estimado para a recuperação de Jair Bolsonaro (PSL), que vai retirar a bolsa de colostomia que o acompanha desde o ataque a faca sofrido durante a campanha. Inicialmente prevista para dezembro, a cirurgia foi adiada para depois da posse.

Mourão não será o primeiro militar presidente das últimas três décadas e meia justamente porque Bolsonaro também tem origem nos quartéis — é capitão da reserva. Considerando a farda verde-oliva “raiz”, porém, a breve passagem do general como titular do Planalto é mas emblemática. Enquanto o presidente eleito tem um histórico conturbado nas Forças Armadas e trocou a carreira militar pela política já em 1988, o vice exerceu vários comandos ao longo da vida pública e só foi para a reserva em fevereiro deste ano, dando na sequência os primeiros passos nas atividades partidárias.

De ascendência indígena, Mourão tem 65 anos e é natural de Porto Alegre (RS). Viúvo desde dezembro de 2016, assumiu um novo relacionamento no ano passado, com Paula, de 42 anos, e se casou com ela em outubro de 2018, entre os dois turnos da eleição presidencial.

Início da carreira nas Agulhas Negras

O militar ingressou no Exército em fevereiro de 1972, na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) onde chegou a ser instrutor. Cumpriu Missão de Paz em Angola, foi adido militar na Embaixada do Brasil na Venezuela e comandou o 27º Grupo de Artilharia de Campanha em Ijuí (RS), a 2ª Brigada de Infantaria de Selva em São Gabriel da Cachoeira (AM) e a 6ª Divisão de Exército, em Porto Alegre. Foi ainda vice-chefe do Departamento de Educação e Cultura do Exército e teve como último posto o de Comandante Militar do Sul, à frente do maior efetivo do Exército no país, entre abril de 2014 e janeiro de 2016.

Deixou o serviço ativo em 28 de fevereiro de 2018, sendo transferido para a reserva remunerada. Se filiou ao PRTB e entrou na política, mas não era a primeira opção de vice. Ele só foi anunciado após as recusas aos convites do príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL), do senador Magno Malta (PR), do general Augusto Heleno (PRP) e da advogada Janaína Paschoal (PSL).

Campanha marcada por declarações polêmicas

A participação de Mourão na campanha presidencial foi marcada por polêmicas. Declarações sobre etnias, benefícios ao trabalhador, a possibilidade de nova constituição e o papel da figura feminina na criação dos filhos geraram tensão entre o vice e Jair Bolsonaro. Em alguns pronunciamentos, o cabeça de chapa chamou a atenção do colega. Em outras, o próprio autor das declarações relativizou suas falas.

Indolência e malandragem

Em 6 de agosto, apenas um dia depois de ser confirmado como vice de Bolsonaro, Mourão esteve em Caxias do Sul para falar sobre os desafios do país em um evento da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC). Ao comentar sobre a herança cultural brasileira, o general reformado do Exército disse que os índios são indolentes, e os negros, malandros.

— Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena, minha gente, meu pai era amazonense. E a malandragem. Edson (da) Rosa, nada contra, viu, mas a malandragem que é oriunda do africano. Esse é o nosso caldinho cultural — disse Mourão, mencionando o vereador Edson da Rosa, que é negro, e estava presente.

Na mesma data, pouco mais tarde, em entrevista à imprensa, o militar reclamou que a repercussão da fala foi deturpada.

— Tenho dito isso em todos os lugares. Nós somos uma amálgama de três raças: do branco, europeu, do índio, que já estava na América, e do negro africano que foi trazido escravo para cá. Sou filho de amazonense, meu sangue é indígena total. Cada raça tem suas coisas boas e coisas ruins, que se juntaram na raça brasileira. Falei que o branco gosta de privilégio, mas ninguém comentou isso — justificou, acrescentando:

— O que deixo muito claro é que eu não sou racista, Bolsonaro não é racista, nós entendemos claramente a raça brasileira, e nós somos isso que se procura hoje, trazer para dentro do Brasil conflitos que nós não temos. Não temos o conflito racial como há em outros países — disse o general.

Nova Constituinte

Em palestra no Instituto de Engenharia do Paraná, no dia 13 setembro em Curitiba, Mourão defendeu uma nova Constituição. Segundo ele, a elaboração do documento de 1988, por parlamentares eleitos, “foi um erro”. O militar argumentou que a nova Carta deveria ser criada por “grandes juristas e constitucionalistas”.

— Uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo. Já tivemos vários tipos de Constituição que vigoraram sem ter passado pelo Congresso eleitos — afirmou, destacando que esse tipo de documento, sem a participação de eleitos, já esteve em vigor em períodos democráticos do país, não apenas durante a ditadura.

Segundo o general, essa “nova” Constituição deveria ser mais “enxuta” que a atual, parecida com a norte-americana, contendo apenas princípios e valores gerais para reger o Brasil.

Em entrevista que deu para o Jornal Nacional poucos dias depois, Bolsonaro desautorizou a declaração de seu vice:

— Ele é general. Eu sou capitão, mas eu sou o presidente. Eu o desautorizei. Ele não poderia ir além daquilo que a Constituição permite. Jamais eu posso admitir uma nova constituinte até por falta de poderes para tal.

“Desajustados”

Em 17 de setembro, o vice de Jair Bolsonaro declarou que famílias pobres sem a presença de pai e avô, mas com “mãe e avó”, são “fábricas de desajustados”, que tendem a entrar no mundo do tráfico de drogas. Conforme o jornal Folha de S.Paulo, a fala do General Mourão foi dada quando ele citava teoria na qual defensores de “agendas particulares” tentam dissolver o núcleo da família. O militar participava de evento do Sindicado do Mercado Imobiliário (Secovi), em São Paulo.

— A partir do momento em que a família é dissociada, surgem os problemas sociais. Atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai e avô, é mãe e avó. E, por isso, torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados que tendem a ingressar nessas narcoquadrilhas — avaliou o candidato, complementando que a sociedade vive uma crise de costumes.

Um dia depois, Mourão relativizou o próprio comentário:

— Um órgão de imprensa disse que critiquei as mulheres, estou apenas fazendo a constatação de coisas que ocorrem em comunidades carentes, com famílias lideradas por mães e avós, pois o homem ou morreu ou está preso, e a maioria dessas mulheres são trabalhadoras, cozinheiras, faxineiras e não tem com quem deixar seus filhos porque não tem creche e escola de tempo integral, então, essa criança vira presa fácil do narcotráfico — declarou.

13º salário

Já em palestra para lojistas em 26 de setembro, em Uruguaiana, Mourão deu mais uma declaração polêmica ao criticar o 13º salário e o abono salarial de férias. No evento, promovido pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) da cidade, o militar reformado classificou como “jabuticabas” os benefícios quando abordou a reforma trabalhista.

— Temos algumas jabuticabas que a gente sabe que é uma mochila nas costas de todo empresário brasileiro. Jabuticabas brasileiras: 13º salário. Se a gente arrecada 12, como pagamos 13? É complicado.

Ele ainda acrescentou:

— O Brasil é o único lugar que a gente, quando entra em férias, ganha mais. São coisas nossas, essa legislação sempre dita social, mas com o chapéu dos outros, não o do governo.

Em razão das declarações, o candidato a vice foi repreendido por seu cabeça de chapa. Bolsonaro foi ao Twitter para se posicionar contra o general e orientar aliados a defenderem as garantias trabalhistas. O presidenciável sugeriu que Mourão não conhece as regras constitucionais. Contudo, em 2 de outubro, Mourão voltou a atacar o vencimento complementar de fim de ano:

— O 13º eu simplesmente disse que tem que ter planejamento, entendimento de que é um custo. Na realidade, se você for olhar, seu empregador te paga 1/12 a menos (por mês). No final do ano, ele te devolve esse salário. E o governo, o que faz? Aumenta o imposto para pagar o meu. No final das contas, todos saímos prejudicados — disse o general.

Branqueamento

Um dia antes do primeiro turno, o candidato a vice voltou a polemizar. O motivo foi a declaração que deu ao chegar no Aeroporto de Brasília. No desembarque, o militar apresentou o neto a jornalistas e elogiou e beleza do menino dizendo que era “branqueamento da raça”.

— Meu neto é um cara bonito, viu ali? Branqueamento da raça — disse Mourão, que já se declarou indígena.

Um dia depois, evitou comentar o caso, que chamou de brincadeira. Segundo ele, não haveria o que esclarecer. O candidato acusou os jornalistas de terem levado a declaração “para outro lado”, e justificou, pouco antes de pegar o voo de volta ao Rio de Janeiro, onde encontraria o presidenciável do PSL.

— Fui idiota. Porque eu brinco, e as pessoas não entendem que é uma brincadeira. Eu sou um cara sincero. Vocês têm de entender isso — disse.

Fonte: Diário Catrinense

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