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Mulher teve filha com homem investigado por se passar por agente federal

Daniel Lopes da Silveira, 38 anos, está preso em Porto Alegre e é apontado por pelo menos 10 pessoas como autor de estelionato

Marina* conheceu Daniel Lopes da Silveira em janeiro de 2018, durante uma viagem a Torres, no Litoral Norte. Educado e com bom papo, contava ser policial federal. No fim de março deste ano, ele se mudou para a Região Metropolitana, onde passou a morar com ela. Era o início de um relacionamento que terminaria com investigação federal. No dia 24 de julho deste ano, o gaúcho foi preso em um shopping de São Paulo. Ele é investigado e apontado por pelo menos 10 vítimas como um falso agente. Ele aplicaria golpes em quatro Estados.

O CASO

  • Homem se passa por policial federal, conquista mulheres, aplica golpes e acaba preso
  • Mulheres enganadas desmascaram falso agente federal que conquistava vítimas para aplicar golpes
  • Viagens, conquistas pela internet e ameaças: como preso por suspeita de aplicar golpes forjou ser policial federal 
  • “É uma cicatriz que a gente leva para o resto da vida”, conta mulher que diz ter sido vítima de falso policial federal

Desde que descobriu que o companheiro, com quem tem uma filha de quatro meses, escondia vidas paralelas, Marina*, assistente social de 34 anos, passou a fazer parte da busca por outras possíveis vítimas. Nesse processo, em horas na internet e no celular, intercalados com crises de choro e os cuidados com a bebê, diz que perdeu 11 quilos e que sua fisionomia mudou drasticamente. E agora planeja um recomeço. Na casa da família, ela aceitou conversar com a reportagem, sem ser identificada:

— Saía de casa todo dia como policial federal. Para mim, estava no trabalho. É uma coisa que ele sustentava muito bem. Ia me buscar no meu emprego fardado. Tanto para mim como para meus amigos, era policial. Era meu companheiro. Dá um ódio muito grande. É difícil, dói. Não é o dinheiro. Ele quebrou muito mais do que isso. É o amor, a confiança. Ele destruiu famílias.

Segundo a mulher, Dan, como se apresentava, contava integrar um grupo tático da Polícia Federal (PF). E, por isso, precisaria viajar para operações pelo país, especialmente para São Paulo e Brasília. Chegava a pedir à sogra que orasse por ele porque estaria seguindo para uma missão perigosa. Em abril do ano passado, contou que havia participado da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Curitiba. Enviou inclusive fotos do comboio federal.  

“Ele aparecia todo mês com um valor em casa. Era como se tivesse um salário fixo. Era dinheiro das outras. Tirava de uma para manter a farsa com a outra.”

VÍTIMA

Em casa, ele mantinha armas e uniformes da PF guardados — os itens eram falsos. Eram fuzis, espingardas e pistolas de pressão (airsoft), que ele exibia em fotos como sendo usados no trabalho. Em novembro do ano passado, teria dito que havia sido transferido para o Aeroporto Internacional Salgado Filho. A mulher então passou a levá-lo até lá. 

— Tinha horário fixo, que era o plantão dele no aeroporto. Levei várias vezes e busquei. Ia fardado. De camiseta, colete, calça. O que ele estava fazendo lá, não sei — conta.

Em fevereiro, os dois se mudaram do apartamento que mantinham para uma casa maior. A filha do casal nasceria cerca de um mês depois.

— Vivíamos como um casal normal. Eu ia visitar a família dele, a família dele vinha me visitar. Com o tempo, começou a aplicar os golpes. Como era meu marido, e por ser policial federal, as pessoas confiavam. Foi tirando dinheiro de todos. Ao mesmo tempo, ele aparecia todo mês com um valor em casa. Era como se tivesse um salário fixo — conta.

Quando descobriu que mais mulheres teriam sido enganadas, Marina* decidiu denunciar o caso à Polícia Federal, que já estava investigando o falso agente. Semanas depois, Dan acabou preso em São Paulo. Em contato com outras mulheres, ela soube, por exemplo, que o companheiro havia alugado apartamento com outra no mesmo mês em que a filha do casal nasceu.

Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal
Tinha caneca e camiseta com inscrição da PFArquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

— Ele dizia para ela que não tinha nada aqui. Eu mostrava o armário completo dele. Inclusive as roupas que ela deu para ele, o relógio. E ela me mostrava o de lá — conta.

Pelos perfis no Instagram, as mulheres foram descobrindo outras, que confirmavam histórias semelhantes. “Tudo que ele fez contigo, fez comigo”, respondeu uma das vítimas. “Ele já destruiu toda a minha família”, relatou outra.

— Uma foi ajudando a outra. Muitas ainda não querem ir à polícia. Têm medo. Choram muito. Se elas tivessem a coragem que eu tive, talvez muitas não tivessem passado por isso. Não tinham passado por todo esse constrangimento, essa vergonha. Mas ele ameaça muito teu círculo familiar. O medo delas era ele ficar solto e se vingar. O que eu quero é que saibam porque um dia ele vai sair da cadeia. Ele é estelionatárioe vai inventar outro personagem.

* Esses nomes são fictícios para preservar as vítimas. 

Contraponto

A advogada Josiane Schambeck informou que ingressou com pedido de liberdade do cliente e que Silveira está colaborando com as investigações.  Ela enviou nota à reportagem: “O pedido de liberdade do Daniel já foi protocolado, e o Ministério Público já foi intimado também para apresentar seu parecer sobre o pedido. Após isso, irá para apreciação e decisão do juiz responsável pelo processo. Por enquanto vamos aguardar tal decisão e, se for o caso, entramos com o pedido de habeas corpus para que ele responda pelas acusações em liberdade. Os fatos já estão sendo melhor esclarecidos e algumas acusações nem deveriam estar sendo discutidas na esfera criminal. Mas, por enquanto vamos aguardar a decisão do juiz referente ao pedido de liberdade e seguiremos trabalhando para este fim.” 

Como denunciar

Caso você tenha alguma informação, procure a Polícia Federal. O contato pode ser feito pelos telefones 51-3235-9013 ou 51-32359000 (horário comercial). 

Vítimas de outros golpes, que não tenham competência federal, podem procurar outros órgãos de segurança, como Polícia Civil (197). 

Fonte: Gaúcha ZH

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