fbpx
Ultimas Notícias

“O vírus não tem perna, é você que leva ele para outras pessoas”, diz Rissi

A Itália é o país mais afetado pela pandemia na Europa. Na Lombardia, uma das regiões mais ricas e o epicentro da pandemia, houveram mais de 300 mortes em um dia. O país europeu é o segundo em número de casos no mundo, atrás apenas da China, onde surgiram os primeiros casos, no final de 2019. Em 19/03 o número de mortos na Itália ultrapassou a China.
Em meio a esse caos está Giovani Rissi, videirense que a 3 anos mora na Itália. Ele a esposa e os filhos, de 10 e 12 anos, estão em quarentena (confinados em casa) desde o dia 26 de fevereiro.
Giovani concedeu uma entrevista via Whatsapp para o Jornal Folha contando como está a situação do país e o enfrentamento da pandemia.

Giovani e a família.
Fonte: Arquivo pessoal

Confira a entrevista


Jornal Folha – Você se recorda quando os primeiros casos começaram a aparecer na Itália? Qual foi a reação da população e dos governantes em relação ao assunto?
Giovani – Os dados que vou passar são oficias. O primeiro caso apareceu no dia 21 de fevereiro e logo foram 16 casos. Depois de investigações descobriram que o vírus já estava em circulação na Itália desde 30 de janeiro, mas como eram sintomas leves as pessoas acabaram não tendo a identificação imediata. A reação inicial por parte da população foi “não tô nem aí” como dizem. Todos achavam que seria mais uma variante da gripe, que não era preciso tomar os devidos cuidados, que era exagero. Por parte do governo teve uma discussão inicial pois o governo federal é de um partido e o governo estadual é de outro e isso gerou um pouco de atrito, mas depois todos perceberam que o negócio era sério acabaram alinhando-se para resolver o problema.
Jornal Folha – Em quanto tempo a pandemia se espalhou no país?
Giovani – Essa questão é interessante do ponto de vista técnico, pois no começo não havia nada e de repente começa a crescer de forma muito rápida (exponencial). Em menos pouco mais de um mês desde o registro dos primeiros casos e já estamos vivendo essa situação de caos aqui na Itália, mostrando a rápida contaminação do vírus. Esse comportamento é esperado em todas as epidemias e se repetirá em todos os países.

Jornal Folha – Na sua cidade tem casos da doença ou de óbitos?
Giovani – A nossa cidade é pequena, tendo 10 mil habitantes e temos 27 casos confirmados com dois óbitos, dados do dia 19 de março.

Jornal Folha – Quando foi decretado quarentena na sua cidade? Qual foi a reação da população, houve movimentações nos mercados, estoque de produtos…?
Giovani – A quarentena aqui foi feita em duas fases. A primeira fechando a região Lombardia em 26 de fevereiro. As pessoas não podiam entrar e nem sair dessa região a menos que tivesse uma grande motivação. Na segunda fase que iniciou no dia 09 de março o país inteiro entrou em quarentena com isolamento de todas as regiões até o dia 03 de abril, podendo ser renovado dependendo dos resultados nas próximas semanas. Nesse período estão proibidas concentrações de pessoas. As escolas estão fechadas, as igrejas não tem mais missas. Não tem mais casamentos, nem festas, cinemas, teatros, jogos, nada. Até os funerais foram cancelados! Sobre a reação da população, no começo ninguém deu bola, subestimaram achando que não tinha nada e na sequencia quando os casos começaram a se multiplicar rapidamente, as pessoas passaram do desprezo ao pânico. Agora as ruas estão vazias. Apesar dos mercados estarem abertos existe um controle na porta para não entrarem muitas pessoas, na fila dos caixas tem uma marcação no chão para evitar a distância mínima de um metro que é a distância segura estabelecida pelas autoridades. Quem não cumpre isso corre o risco de ser fechado e multado. Os caixas dos supermercados estão sempre de máscara e luvas. Não falta nada, o abastecimento está normal. Os primeiros dias da quarentena as pessoas se desesperaram e houve uma baixa significativa nos estoques, mas logo foi normalizado.

Jornal Folha – Como está sendo a quarentena e até quando ela segue?
Giovani – Inicialmente seguimos em quarentena até dia 03 de abril. Nós estamos encarando com muita seriedade no sentido de evitar o contato com outras pessoas. Temos organizado uma rotina interna da família onde temos estudo, trabalho, diversão pois temos dois filhos e é importante que eles se ocupem e não fiquem entediados. Fazemos jogos de movimento, ginástica para eles poderem queimar energia e terem uma rotina mais tranquila. No final das contas, sabemos que é um transtorno mas tem muita outras coisas piores do que ficar em casa por um período. Temos o relato de pessoas que estão entubados no hospital em uma sala isolada, então é melhor ficar me quarentena em casa do que no hospital. As crianças tem vídeo aula através de uma ferramenta do Google e na hora marcada eles fazem a chamada, tem conteúdo a professora tem interação com os alunos, faz perguntas para que eles respondam e isso ajuda a manter a rotina de estudo e minimizar os impactos da ausência de aula na escola.

Jornal Folha – Segundo algumas informações divulgadas o perfil das pessoas que morreram por coronavirus na Itália é o mesmo da China, mas o número de vítimas é três vezes maior. Na sua opinião o que pode ser atribuído a esses dados?
Giovani – O perfil das pessoas que vieram a óbito, tanto na Itália quanto na China é o mesmo. O risco de óbito sobe conforme a idade. Mas a mortalidade aqui está muito maior. Na China estava em 2,3% e aqui está em 7,7% do total de infectados. Isso porquê proporcionalmente aqui temos muito mais idosos. A idade média da China segundo o Banco Mundial é de 76,25 anos a expectativa de vida e da Itália 82,50 anos, dados de 2016.

Jornal Folha – Sobre as informações divulgadas na mídia local, também houve “Fake News”? Você lembra quais as mais comuns?
Giovani – Não tivemos Fake News. As informações são transparentes e estão disponíveis no site do ministério da saúde italiano e todas as mídias têm eles como fonte.

Jornal Folha – Quais os cuidados que você pode repassar para a população evitar a contaminação pelo coronavírus?
Giovani – Eu sugiro que a população brasileira olhe os erros e acertos da população italiana para poder fazer um modelo mais bem sucedido pro Brasil em termos de proteção à população. O maior erro do povo italiano foi subestimar a epidemia no início, não levar a sério e achar que não vai acontecer anda. Essa é uma situação muito grave. O pânico e a histeria também não ajudam em nada, fazer estoque além do que consumimos abitualmente também não. O que realmente ajuda: lavar as mãos com frequência, evitar contato com outras pessoas. Se tiver que sair de casa mantenha a distância mínima de pelo menos um metro dos demais. Não compartilhar objetos pessoais como celular, copos, entre outros. Oferecer desinfetante na entrada dos estabelecimentos que possam permanecer aberto. Cobrir a boca com o ante braço ao tossir e espirrar. E o principal, e essa é uma fala da minha esposa Luciana Casagrande, “o vírus não tem perna, o vírus não vi a lugar nenhum, são as pessoas que levam ele de um lugar para outro”. Não espere acontecer como na Itália, que temos guardas nos cruzamentos parando os carros e pedindo para onde você vai e solicitando um documento que se chama “auto-declaração” com detalhes do trajeto (um vizinho foi comprar pão sem esse documento e levou uma multa de 200 euros). Tome a inciativa de auto isolamento imediatamente evitando lugares com muitas pessoas. É melhor passar por um período de restrições agora do que chorar pela perda de alguém. O Brasil tem todas as condições de não repetir os erros da Itália se agir rapidamente.

%d blogueiros gostam disto: