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O relato de uma infância marcada por abusos e negligência

“No dia que soubemos que iriamos morar com a nossa mãe eu estava tão feliz e animada, mas minha irmã mais velha não. Eu tentei anima-la e disse: “vai ser bem legal”, mas ela chorava. Mal sabia eu que minha vida estava prestes a se tornar um inferno”

Assim começa a história de Ana, pseudônimo da videirense entrevistada pelo Jornal Folha que desde os 6 anos de idade sofreu abusos sexuais pelo padrasto. Ela decidiu contar sua história para encorajar outras crianças e adolescentes a denunciarem seus agressores.

18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data instituída pela Lei Federal 9.970/00 é uma conquista que demarca a luta pelos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes no território brasileiro.

Esse dia foi escolhido porque em 18 de maio de 1973, na cidade de Vitória, No Espírito Santo, um crime bárbaro chocou todo o país e ficou conhecido como o “Caso Araceli. Ela tinha oito anos de idade, quando foi raptada, estuprada e morta por jovens de classe média alta daquela cidade. O crime até hoje está impune.

Anos de sofrimento

Ana morava com os avôs maternos. Ela e sua irmã mais velha não conheceram o pai biológico. Quando foram morar com a mãe e o padrasto, Ana tinha 3 anos. Ela conta que era obrigada a limpar toda casa, e se as coisas não ficassem como eles queriam ambos batiam nela.

“Eu apanhava dos dois. Nunca pude conversar com a minha mãe. Ela não explicava as coisas pra nós. Depois que meus irmãos, filhos que ela teve com meu padrasto, começaram a nascer ficou ainda pior” lembra.

O tratamento com sua irmã mais velha, especialmente por parte do padrasto, era diferente. No dia em que sua irmã se casou, Ana, que na época tinha 6 anos, achou que teria a oportunidade de ter uma vida melhor, mas estava enganada.

“Meu padrasto veio até mim e disse: “você quer que eu te cuide como eu cuidava da sua irmã?”. Eu imaginei, na minha inocência de criança, que ele ia parar de me bater e respondi que sim. Ele me levou até o banheiro e abusou de mim” conta.

Daquele dia em diante os abusos passaram a ser diários.

A fuga para uma nova vida

Foram quase seis anos de abusos frequentes. Ana era ameaçada, agredida, violada. Ela se sentia culpada, assustada e sem ninguém para pedir socorro.

“Eu dormia no quarto com minha outra irmã no beliche. Uma noite pedi para ela trocar de lugar comigo pra ele não me abusar. Quando ele viu que nós trocamos de lugar ele me bateu, me mandou de volta pra minha cama e abusou de mim mais uma vez. Um dia eu cheguei chorando na escola. Uma amiga veio falar comigo e eu contei pra ela, disse que ela não podia contar pra ninguém. Ela quis me levar até a diretora mas eu não quis. Meu padrasto me ameaçava de todas as formas. Ele dizia que ia matar a minha mãe, meus avôs, meus irmãos seu eu contasse pra alguém. Eu me sentia culpada em pensar que meus irmãos ficariam sem mãe e por isso não contava. Eu tinha vergonha de falar o que ele fazia comigo.” diz.

Aos 12 anos Ana decidiu que era hora de pôr um ponto final naquele sofrimento.

“ Quando não me ameaçava ou me batia meu padrasto me oferecia dinheiro, brinquedos ou roupas para me abusar sem eu contar para ninguém. Eu tinha 12 anos quando decidi fugir de casa. Naquele dia ele tinha me oferecido uma calça colorida, daquelas que eram moda na época para poder me abusar diferente. Ele falou coisas horríveis que iria fazer comigo e eu fiquei com medo. Se eu não tivesse fugido os abusos iam ser cada vez piores. Eu disse que ia pra escola. Fui até a metade do caminho com meus irmãos e disse pra eles que podiam ir na frente que eu ia na casa de uma amiga e logo chegava. Me escondi atrás de uns arbustos perto da prefeitura e vi meu padrasto passar logo em seguida. Eu fui para casa de uns amigos que me acolheram. Cinco dias depois eu consegui contar para eles o que estava acontecendo e eles me levaram para o Conselho Tutelar” fala Ana.

Sua mãe foi chamada e os conselheiros tutelares contaram todos os abusos que Ana sofria desde criança, porém a reação da mãe surpreendeu a todos.

“Ela disse: “eu não vou estragar meu casamento por causa dela”. Essa foi a última frase que eu ouvi da minha mãe. Naquele dia voltei a morar com meus avôs, mas minha avó era alcoólatra e não pude ficar com ela. Fui morar com minha madrinha mas não deu certo, então meses depois eu fui encaminhada para o abrigo e lá fiquei até completar 17 anos”

Assim como no caso Araceli, o agressor de Ana continua impune. Quase 11 anos depois da primeira denúncia, sua irmã mais velha também resolveu denuncia-lo por estupro.

Hoje Ana é casada, tem uma filha e continua morando em Videira. Ela comenta que os grupos e o apoio dos profissionais do Centro de Referencia Especializado de Assistência Social CREAS foram muito importantes para que ela pudesse seguir em frente.

“Depois da denúncia eu comecei a fazer acompanhamento psicológico através do CREAS. Comecei a frequentar os grupos e conheci outras crianças que sofriam abusos assim como eu. Não posso dizer que superei, essa é uma marca que eu vou carregar pela vida toda, mas eles me ajudaram a seguir em frente. Eu digo para as pessoas que estão sofrendo algum tipo de violência que não fiquem quietos, denunciem, busquem ajuda. Eu recebi ajuda e consegui seguir em frente” finaliza.

Onde denunciar

Há algumas formas de denunciar casos de violência sexual a menores de idade:

Disque 100

Como nos casos de racismo, homofobia e outras violações de direitos humanos, qualquer cidadão pode fazer uma denúncia anônima sobre casos abuso infantil pelo Disque 100. A denúncia será analisada e encaminhada aos órgãos de proteção, defesa e responsabilização em direitos humanos, respeitando as competências de cada órgão.

Conselho Tutelar

O Conselho Tutelar é responsável pelo atendimento de crianças e adolescentes ameaçados ou violados em seus direitos. Pode aplicar medidas com força de lei. A denúncia pode ser feita por telefone ou pessoalmente, na sede do conselho. O Conselho Tutelar de Videira fica na rua José Formighieri, n°126, bairro Alvorada. O telefone de contato é (49) 99120-9788.

CREAS / CRAS

Os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) realizam o atendimento em atenção básica à população em geral, e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) oferecem o atendimento de média complexidade, que inclui o atendimento psicossocial a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. O Centro de Referencia Especializado de Assistência Social (CREAS) de Videira fica na rua Veneriano dos Passos, n° 150, centro. O telefone de contato é 3566-6743.

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