• 18/10/2020

ENTREVISTA – Médico: heróis da vida real

Neste domingo, dia 18 de outubro, é celebrado o Dia do Médico. Profissional responsável por cuidar da saúde das pessoas, o médico pode ser generalista, ou seja, não necessariamente precisa de uma especialização em nenhuma área especifica da medicina, ou especialistas em diversas outras áreas.

O dia 18 foi escolhido como Dia do Médico, pois é o mesmo dia de São Lucas. Lucas foi um dos quatro evangelistas do Novo Testamento, e seu evangelho é o terceiro em ordem cronológica. Lucas era médico, razão por que se decidiu homenagear os profissionais com o mesmo dia do Santo.

O médico é o profissional responsável por descobrir as enfermidades que atingem determinado paciente, fornecendo suporte e indicações adequadas para que haja a cura. É ele também o responsável por indicar formas de prevenir doenças e orientar o indivíduo para que esse possa ter uma vida mais saudável.

A medicina, sem dúvidas, é uma das áreas do conhecimento que exigem maior comprometimento e responsabilidade por parte do profissional. Para ser um bom médico, é fundamental um investimento constante em aperfeiçoamento, ficando sempre informado a respeito das novas descobertas científicas, conhecendo novos tratamentos e exames, além de estar atento às novas doenças que surgem a todo tempo.

O bom médico, além de ter um bom embasamento teórico, deve saber relacionar-se, promovendo uma relação de confiança com seu paciente. A relação médico-paciente é fundamental para o andamento adequado do tratamento, uma vez que o paciente sente-se à vontade para falar em detalhes o que lhe aflige. Assim sendo, é fundamental que o médico abra espaço para questionamentos e saiba explicar de maneira atenciosa e cuidadosa o que acomete cada pessoa.

A relação de confiança estabelecida entre médico-paciente também é importante nos momentos de grande dor, como ao informar sobre uma doença terminal. O médico deve estar preparado para encarar a morte e ajudar os parentes e até mesmo o paciente a encarar esse momento tão difícil.

Além de toda responsabilidade em torno dessa profissão, os médicos enfrentam grandes dificuldades cotidianamente, como a falta de estrutura de muitos hospitais brasileiros e também a falta de recursos. Infelizmente, sem condições de trabalho, os médicos não conseguem desempenhar de maneira adequada o seu papel, o que gera insatisfação por parte dos pacientes.

Diante de tantos desafios, os médicos merecem que o 18 de outubro seja uma data para o reconhecimento desse profissional e de sua importância para a sociedade. Também é um momento para pedir maiores investimentos na saúde e garantia de condições adequadas de trabalho. Para falar um pouco mais sobre a profissão, conversamos essa semana com o Dr. Fabrício Molon da Silva, médico Neurocirurgião, que nos conta um pouco sobre a sua profissão. Acompanhe:

Jornal Folha – há quanto tempo você é formado? Onde e quando se formou?
Dr. Fabrício – sou formado na universidade de caxias do sul, ano de 2002, sendo então 18 anos.

JF – o que despertou seu interesse na medicina? O que o motivou?
Dr. Fabrício – quando estava no último ano do segundo grau, naquela fase de escolher a profissão, qual curso universitário entrar, eu ajudava meu pai na lavação de carros, e um medico que era neurocirurgião deixava o carro dele la toda semana para lavar, e um dia ele me convidou para ir ver uma cirurgia dele. Eu fui, quando ele colocou a furadeira na cabeça para começar a cirurgia eu entendi que era aquilo ali que eu queria, pois o tamanho da precisão, destreza e coragem me encantou.

JF – o que é mais gratificante na sua profissão?
Dr. Fabrício – poder ajudar o próximo com certeza é o mais gratificante, quando uma pessoa te agradece por ter mudado a vida dela é algo extraordinário.

JF – como é lidar hoje em dia com o paciente da era google, que já chega na consulta com o próprio diagnóstico?
Dr. Fabrício – muito importante o acesso ao conhecimento, mesmo que seja pela internet, com esta ferramenta sendo bem usada, o paciente entende mais sobre a sua doença e como prevenir ou cuidar da sua saúde. Por outro lado, o problema surge quando existem falsos testemunhos, falsas declarações que atrapalham o conhecimento verdadeiro, colocando ideias totalmente erradas como verdadeiras, por isso devemos cuidar e ter discernimento do que lemos na internet.

JF – na tua trajetória médica, algum atendimento em especial ficou na tua memória? Por quê?
Dr. Fabrício – sim, tem pessoas e situações que marcam a vida medica.Aquele paciente que transfixou uma barra de ferro na cabeça, o qual atendi, operei e o reabilitei ficou muito marcado, pelo tamanho da gravidade, em que me deparai com aquilo e me perguntei: por onde começo?

JF – e com todas as dificuldades relacionadas à saúde pública, vale a pena ser médico atualmente?
Dr. Fabrício – a medicina transcende ao óbvio tecnicismo, é muito mais que um desejo de conhecimento: é um sonho de transformação. As dificuldades da saúde pública existem e limitam a atuação médica, muitos acabam aprendendo a “driblar” essas falhas de infraestrutura para providenciar o atendimento correto para quem precisa. Há quem veja os médicos do sistema público como heróis. Realmente não é simples aguentar tantos transtornos e ainda seguir atendendo, mas é sem sombra de dúvidas o lugar em que a população mais precisa de atendimento. Grande parte da recompensa pode vir pelo simples fato de estar ajudando e se colocando à disposição de quem não pode pagar.

JF – em sua opinião, quais são os principais desafios da atuação médica no país?

Dr. Fabrício: A profissão médica tem muitos desafios, a ciência humana tem muitas variáveis que a diferem grandemente das ciências exatas. Muitos processos do próprio ser humano ainda são pouco compreendidos pela medicina, o que leva um tratamento funcionar em uma pessoa e não em outra. Este fator humano associado a um aumento diário no estresse, cobranças e insatisfações tem originado doenças em que a mente humana gera sintomas físicos dificultando ainda mais o tratamento. As doenças já foram tratadas como algo isolado no ser humano e tinham como alvo de tratamento somente a parte doente do organismo. A ideia de que o nosso corpo pode adoecer em consequência de problemas emocionais é um assunto que ganha cada vez mais espaço nos estudos contemporâneos.

JF – com a rotina profissional sempre cheia, como é conciliar o trabalho médico com as relações familiares?
Dr. Fabrício – um desafio conciliar rotina profissional com família, porém nos dias atuais, todas as profissões tem esse desafio, cada vez mais limitado o nosso tempo livre, cada vez mais o trabalho ocupa nossos lares e nosso tempo com família. A vida é um eterno equilibrar entre escolhas e consequências, para termos paz devemos encontrar o ponto de equilíbrio

JF – que conselho daria para o estudante que acabou de entrar na faculdade de medicina?
Dr. Fabrício – ser médico nunca foi tarefa fácil. Sempre se exigiu do indivíduo que pretendesse exercer o ofício de médico um talhe social diferenciado. Se no princípio éramos tidos e aceitos como intermediários entre os homens e os deuses, o que originou parte do conceito de ser a medicina um sacerdócio, hoje nos é cobrado o papel de depositários de um desejado, por infinito, conhecimento científico que vence todas as doenças e afasta o inevitável e derradeiro confronto da humanidade individual: a morte. E tudo isso em apenas um único ser humano.

JF– deixamos um espaço para suas considerações finais.
Dr. Fabrício – companheira do homem em sua jornada terrestre, a medicina tem sido responsável por grande parte do sucesso alcançado pela humanidade na melhoria da qualidade e quantidade de vida experimentada pelo homem. Nos últimos anos, seus avanços ajudaram a duplicar o tempo a média de vida: dos 35 anos de vida previstos na sociedade industrial inglesa do início do século passado passamos para os 65 anos previstos atualmente para o nosso brasil. Junto a este tempo adicional de vida agregou-se qualidade pelo controle das doenças. A medicina trouxe ao ser humano uma maior longevidade e qualidade na sua vida.